La Galaxie

Quando penso no Ford Galaxie no Brasil, vêm logo algumas imagens clássicas: o carro da Presidência da República, os táxis especiais do Ca’d’Oro, personagens lendários como o “Dr. Silêncio” e o Sr. Arno, conhecido como o rei do Galaxie.

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Não por acaso. Produzido no Brasil entre 1967 e 1983, o Galaxie foi, durante anos, o maior, mais confortável e mais imponente carro nacional, um símbolo de status em uma época em que o automóvel ainda carregava muito mais significado do que simplesmente levar alguém do ponto A ao ponto B.

Mas, para mim, nenhum deles é mais marcante do que o Galaxie 500 verde-mangueira, câmbio manual e ar-condicionado do querido Sr. Nino. O Sr. Nino tinha família grande, dessas que ocupam todos os bancos e ainda sobram histórias, e precisava de um carro à altura. E o Galaxie cumpria esse papel como poucos: um verdadeiro sofá sobre rodas, empurrado por um V8 que fazia tudo parecer fácil.

Um país, um carro, uma época

Nos anos 1970, o Brasil vivia um momento curioso. De um lado, a crise do petróleo começava a mudar hábitos. De outro, ainda era comum ver carros grandes descansando na garagem, esperando o fim de semana, e sendo religiosamente “aquecidos” durante a semana para manter tudo em ordem. O Galaxie fazia parte desse ritual.

Motor V8, 292 polegadas cúbicas, torque abundante e uma característica curiosa: ele não precisava de pressa. Podia subir de giro com elegância ou simplesmente deslizar, como se o tempo tivesse outro ritmo ali dentro.

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Meu primeiro Galaxie

Foi em uma dessas viagens que o Sr. Nino deixou o carro estacionado na nossa casa de praia. E eu, com meus dez anos, férias pela frente e uma curiosidade enorme por tudo que tivesse motor, fui encarregado de uma missão que, para mim, parecia coisa de adulto:

— Cuida do carro.

O Galaxie tinha detalhes que me fascinavam. A luz “FRIO”, que só apagava quando o motor atingia a temperatura ideal. A luz “FREIO”, piscando como um aviso elegante. E as calotas, ou melhor, as pequenas calotas de Maverick, solução prática depois de tantas “expedições” para recuperar as originais perdidas nas serras.

Mas nada se comparava ao momento de dar partida. O silêncio de um V8

As instruções do Sr. Nino eram claras:
— Pisa na embreagem
— Confere o “morto”
— Puxa o afogador
— Gira a chave

E então…
vida!

Aquele foi meu primeiro contato com um motor V8. E o que mais me impressionava não era o barulho.

Era o silêncio.

Um funcionamento tão suave que, às vezes, era preciso acelerar levemente só para confirmar que o motor estava realmente ligado. Nada vibrava, nada reclamava. Era como se o carro simplesmente aceitasse existir.

Para um garoto de dez anos, aquilo não era um carro. Era uma nave espacial. E eu viajei muitas galáxias ali, parado na garagem.

Tapete voador brasileiro

Só quem já andou em um Galaxie, ou, como dizia o Nino, “La Galaxie”, entende.

Era espaço de sobra, bancos largos, direção leve e uma sensação de flutuar sobre o asfalto representava o topo da engenharia automotiva disponível no Brasil da época.

Era menos um carro… e mais uma experiência.

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O fim da produção, o começo da memória

Em 1983, a produção do Galaxie no Brasil chegou ao fim. Mas alguns carros não saem de linha.

Eles ficam estacionados em algum lugar da memória, com cheiro de banco de vinil, painel iluminado e um V8 silencioso esperando para despertar.

E, de vez em quando…

a gente ainda escuta o motor pegar.


Davide Margelli é apaixonado por mecânica e pela cultura dos motores. Com passagens por grandes e pequenas oficinas, construiu sua experiência entre ferramentas, motores desmontados e histórias de estrada. Piloto de veículos clássicos na terra, na água e no ar, traz na bagagem grandes jornadas e muitas boas histórias para compartilhar, sempre unindo técnica, memória e paixão pelo universo da mobilidade.