O Cinquecento do Nonno

Meu interesse por carros antigos nasceu de experiências e de sensações que ficaram gravadas muito antes de eu compreender o que significava, de fato, gostar de automóveis.

Minhas primeiras lembranças têm o carro como pano de fundo.

Em uma delas, meu avô — que, para minha surpresa, era o responsável pela manutenção da antena repetidora da RAI na região — me pergunta:
“Vou até a repetidora. Quer vir comigo?”. Não pensei duas vezes.

Com sete anos, eu adorava meu avô, adorava andar de carro e estava curioso a respeito da antena. Não perderia aquela oportunidade.

Fiat Multipla 600 – origem da imagem: Ficheiro:1959 Fiat 600 Multipla tipo 100.108.jpg – Wikipédia, a enciclopédia livre

Lembro de pensar: acho que nunca andei de carro com meu avô.

Nunca teria imaginado que aquele senhor, beirando os setenta anos, sempre muito calmo e aparentemente ponderado, pudesse dirigir tão rápido. Hoje eu diria: até irresponsável.

Lembro dele conduzindo seu Fiat 500 pelas vielas estreitas, em direção ao ponto mais alto da pequena cidade, como se fosse um Porsche.
Eu, no banco do passageiro, sem cinto de segurança.

Aos sete anos de idade, eu não trocaria aquilo por uma semana na Disney.

Lembro também da garagem mal iluminada onde ele guardava seus carros.

Além do Fiat 500, havia um Fiat 600 Multipla, da década de 60, e um furgão Bedford.

O cheiro era inconfundível: gasolina, mofo e graxa.

Uma mistura permanente que parecia impregnada nas paredes e que, para mim, significava apenas que aquele era o lugar onde as coisas importantes ficavam.

Furgão Bedford – origem da imagem Bedford, une voiture de collection proposée par Johan C.

Anos depois, outro verão.

Estrada de terra. Noite. Indo para a praia com três amigos.

Brincávamos que estávamos no Rali de Monte Carlo.

Era o mesmo Fiat 500 do meu avô.

Em uma curva, empolgação demais.

Capotei.

Não houve feridos. Houve silêncio e uma sensação de vergonha.

E, pela primeira vez, a percepção concreta de que máquinas têm limites — e nós também.

Naquela hora, lembrei do meu avô.
Ele conhecia aquele carro muito melhor do que eu.


Michele Corda é apaixonado por carros e máquinas desde a infância, quando aprendeu que automóveis podem ser mais do que meios de transporte: podem ser memória, herança e aprendizado. Pai de dois filhos, aos quais teve a alegria de transmitir esse mesmo interesse, é tutor de um clássico Mustang coupé 1966 — não como proprietário, mas como guardião de uma história sobre rodas.