Existem paixões que nascem cedo e nunca nos abandonam de verdade. Podem ficar adormecidas por anos, às vezes décadas, mas permanecem ali, silenciosas, esperando apenas o momento certo para voltar à vida. A minha sempre esteve ligada às estradas, aos motores e à curiosa arte de competir contra o tempo.
Mas, na verdade, essa relação com as máquinas começou muito antes. Desde muito pequeno, algo me atraía de forma quase inexplicável para tudo aquilo que se movia por meio de engrenagens, pistões e combustível, rodas e alavancas. Havia uma curiosidade constante — observar motores, entender como funcionavam, acompanhar o movimento das peças, imaginar o que acontecia dentro daqueles blocos metálicos aparentemente silenciosos. Era uma fascinação que nascia mais da observação e da intuição do que de qualquer explicação racional.

Davide Margelli, Fernando Vianna e o Passat Iraque 1986 no Rally Universitário
Foi apenas anos depois, já na universidade, na década de 1980, que essa afinidade encontrou um caminho natural nas competições automobilísticas. Foi ali que conheci o Rally Universitário e tive minha primeira experiência como piloto em provas de regularidade, em um Passat LSE 1986 “Iraque”. Para quem vê de fora, pode parecer apenas um exercício de precisão — seguir médias, observar planilhas, respeitar o cronômetro. Mas para quem está dentro do carro, a experiência é muito mais do que isso.
Há algo de profundamente humano no rally de regularidade. A estrada passa a ser um texto a ser lido, curva após curva ,“tulipa após tulipa” (representação gráfica do caminho presente na planilha) . O navegador e o piloto formam uma pequena sociedade dentro do carro, unida pelo ritmo do tempo e pela interpretação do caminho. Cada quilômetro traz um desafio silencioso, cada referência na planilha é uma promessa de acerto ou um risco de erro. E, ao final de tudo, há sempre aquela sensação única de ter percorrido uma jornada onde precisão e sensibilidade caminham juntas.

Glasspac AC cobra 1982 (replica)
Como acontece com muitos de nós, porém, a vida tratou de colocar outras prioridades no caminho. Vieram os anos dedicados à profissão, as responsabilidades, a construção de uma família, os filhos crescendo e a rotina ocupando os espaços antes reservados às aventuras automobilísticas. O capacete ficou guardado, os cronômetros silenciaram e os rallys passaram a existir apenas na memória, nas conversas entre amigos.
Mas algumas paixões nunca desaparecem por completo. Elas ficam guardadas como um veiculo antigo esperando apenas uma boa revisão para voltar a funcionar.

Alfa Romeu Spider 1974
E foi exatamente isso que aconteceu anos depois.
Um grupo de amigos, igualmente apaixonados por carros, mecânica e pela história que vive dentro de cada máquina, decidiu criar o CPRH e organizar a Copa Paulista de Veículos Clássicos, entre outros . Aquela iniciativa trouxe algo mais do que um novo campeonato: trouxe de volta um espírito. O espírito das estradas, da camaradagem, da mecânica clássica e da alegria simples de conduzir um automóvel que carrega décadas de história.

origem da imagem (1) Facebook
Foi nesse momento que tive a oportunidade de reencontrar aquela paixão que havia ficado adormecida por tanto tempo.
Voltar ao rally, agora guiando veículos clássicos, trouxe uma dimensão completamente nova à experiência. Cada carro tem sua personalidade, seus ruídos particulares, sua forma própria de conversar com o piloto. Diferente dos carros modernos, nos clássicos tudo é mais sensorial: o cheiro do combustível, o som do motor trabalhando, o volante transmitindo cada irregularidade da estrada.
Participar dessas provas passou a ser, ao mesmo tempo, um desafio esportivo e uma viagem no tempo.
As estradas continuam ali, como sempre estiveram. O cronômetro continua exigindo atenção. Mas agora existe também o prazer de preservar e celebrar máquinas que atravessaram gerações. Há algo de especial em conduzir um carro que já viveu tantas histórias e levá-lo novamente para cumprir seu destino natural: rodar, competir e encontrar novos caminhos.

origem da imagem (1) Facebook
Com o tempo, outras modalidades e aventuras também passaram a fazer parte dessa jornada. Mas o espírito permanece o mesmo daquele primeiro rally universitário: a alegria da estrada, a concentração do tempo e o prazer de compartilhar tudo isso com amigos que entendem que o antigomobilismo é, acima de tudo, uma forma de viver intensamente cada quilômetro.
Porque no final, mais do que a classificação ou os troféus, o que realmente permanece são as histórias. Histórias de estradas poeirentas, de planilhas rabiscadas, de motores que insistem em continuar rodando e de pessoas que descobriram, em algum momento da vida, que algumas paixões simplesmente nasceram para durar.
E enquanto houver uma estrada pela frente e um carro disposto a segui-la, essa história continuará.
Davide Margelli é apaixonado por mecânica e pela cultura dos motores. Com passagens por grandes e pequenas oficinas, construiu sua experiência entre ferramentas, motores desmontados e histórias de estrada. Piloto de veículos clássicos na terra, na água e no ar, traz na bagagem grandes jornadas e muitas boas histórias para compartilhar, sempre unindo técnica, memória e paixão pelo universo da mobilidade.



