Há uma cena que se repete com frequência no antigomobilismo brasileiro.
Basta um Ferrari, um Porsche ou um Jaguar estacionar em um encontro para formar uma roda de admiradores. Câmeras são sacadas do bolso, celulares registram cada detalhe e, inevitavelmente, alguém comenta que está diante de uma obra de arte.
E está mesmo.
Mas, poucos metros adiante, um Willys Interlagos, um DKW-Vemag, um Simca Chambord, um Puma, um Miura ou um Santa Matilde muitas vezes aguardam em silêncio por um olhar mais atento. São automóveis que ajudaram a construir a história da indústria brasileira e que, paradoxalmente, ainda lutam para conquistar o reconhecimento que merecem dentro do próprio país.
Talvez seja uma característica nossa valorizar aquilo que vem de fora. Afinal, Ferrari, Porsche e Mercedes-Benz construíram trajetórias extraordinárias e são referências incontestáveis na história do automóvel. O problema começa quando conhecemos melhor a história deles do que a nossa.
Poucos brasileiros sabem que o Willys Interlagos foi o primeiro automóvel esportivo fabricado em série no país. Que a DKW-Vemag desenvolveu soluções técnicas extremamente avançadas para sua época. Que a Gurgel ousou criar uma fabricante genuinamente nacional. Ou que empresas como Puma, Miura, Bianco, Santa Matilde e Hofstetter provaram que era possível produzir automóveis capazes de despertar emoção e personalidade utilizando talento, criatividade e perseverança.
Nossa história automobilística não é menor. Apenas é menos contada.
E talvez esse seja o maior desafio do antigomobilismo brasileiro nos próximos anos.
Preservar um automóvel é importante. Restaurar um clássico é admirável. Mas preservar sua história é ainda mais essencial. Um carro sem contexto torna-se apenas um objeto antigo. Quando conhecemos quem o projetou, quem o fabricou, quem o dirigiu e em que momento da história ele surgiu, ele deixa de ser apenas metal, vidro e borracha para se transformar em patrimônio cultural.
O Portal Retro Drive nasceu justamente com esse propósito.
Queremos contar histórias que muitas vezes ficaram esquecidas entre fotografias antigas, revistas amareladas e memórias de quem viveu a época. Queremos mostrar que o Brasil produziu automóveis capazes de emocionar, inovar e representar gerações inteiras. E queremos fazer isso sem diminuir a importância dos grandes clássicos internacionais. Pelo contrário. Conhecer Ferrari, Porsche ou Jaguar é admirar a história do mundo. Conhecer Puma, Gurgel, DKW-Vemag ou Santa Matilde é compreender um pouco mais da nossa própria identidade.
O antigomobilismo não existe apenas para conservar carros.
Existe para preservar memória.
Porque um país que conhece sua história automobilística também entende melhor sua história industrial, econômica, cultural e, acima de tudo, humana.
Cada carro antigo brasileiro guarda uma pequena parte de quem fomos.
Cabe a nós garantir que essas histórias continuem sendo contadas às próximas gerações.
Fernando Vianna
Editor-chefe – Retro Drive
Fernando Vianna é Fotógrafo e Designer Gráfico com larga experiência em edição de livros. É editor do Museu Virtual Santos Dumont, e do portal Retro Drive.



