Carro Clássico é para rodar

Tenho feito diversas entrevistas com proprietários dos mais variados modelos de clássicos, e em sua grande maioria, são carros que chegam rodando aos encontros, porém nas inúmeras conversas que tive, percebe-se que existe uma cena cada vez mais comum no antigomobilismo: O sujeito compra o carro, restaura durante meses, faz uma pintura impecável, deixa os cromados perfeitos, troca os pneus, refaz a tapeçaria e todos aqueles pequenos detalhes que fazem o proprietário abrir a garagem apenas para admirá-lo, aí colocam a capa, e ele fica ali.

Não pode pegar chuva. Não pode enfrentar estrada ruim. Não pode estacionar na rua. Não pode viajar muito longe porque pode quebrar. Não pode rodar demais porque aumenta a quilometragem. Dependendo do carro, até o encontro de domingo começa a parecer arriscado.

Sem perceber, transformamos um automóvel em uma peça de decoração.

É evidente que existem carros cuja importância histórica, raridade ou estado de conservação justificam cuidados excepcionais. Um sobrevivente absolutamente original, um exemplar único ou um automóvel com história documentada merece tratamento compatível com sua relevância. Mas eles são exceções.

A maioria dos nossos carros antigos nasceu para fazer exatamente aquilo que muitas vezes tentamos impedir que faça: andar.

Um Fusca foi feito para enfrentar cidades, estradas e férias em família. Um Opala nasceu para percorrer quilômetros. Uma Kombi carregou gente, mudanças, mercadorias e sonhos. Uma Rural atravessou lugares onde praticamente não havia estrada. Um Corvette foi criado para proporcionar prazer ao volante.

Quando retiramos completamente essas experiências de um automóvel, talvez estejamos preservando o objeto, mas também estamos deixando de preservar parte daquilo que fez dele especial.

Porque carro antigo tem cheiro. Tem barulho. Tem temperatura. Tem vibração.

Tem aquele momento em que o motor demora um pouco mais para pegar pela manhã. Tem o cuidado com o afogador. Tem a atenção com a temperatura da água. Tem direção sem assistência, freio que exige antecipação e câmbio que pede alguma intimidade.

São pequenas imperfeições que fazem parte da experiência.

Quem dirige um automóvel de cinquenta anos não está simplesmente se deslocando. Está experimentando uma maneira diferente de viajar no tempo.

E existe outra questão ainda mais importante. Carros criam lembranças quando são usados. Um filho que acompanha o pai a um encontro de carros antigos talvez não se lembre, daqui a trinta anos, de quantos pontos aquele carro recebeu em um concurso de elegância. Provavelmente se lembrará da manhã em que acordou cedo, entrou naquele carro, ouviu o motor funcionando e passou o domingo ao lado do pai.

Basta ver nas redes sociais do Retro Drive, a quantidade de depoimentos que os proprietários se referem a seus carros com paixão e saudosismo, a memória de ter andado com a família, vivido uma aventura, ou simplismente lembrar de sua juventude, o prazer de dirigir aquela máquina.

Essa memória não aparece no hodômetro. Também não aumenta o valor do carro em um leilão. Mas talvez seja justamente o que mais vale.

O antigomobilismo precisa preservar automóveis, naturalmente. Precisamos de museus, coleções, restaurações criteriosas, documentação histórica e pessoas dispostas a investir tempo e dinheiro para salvar veículos que poderiam desaparecer.

Mas preservar não deveria significar necessariamente imobilizar.

Existe algo extraordinário em encontrar um carro antigo na estrada. Não dentro de um pavilhão, cercado por cordões de isolamento, mas circulando entre automóveis modernos como se tivesse simplesmente se recusado a envelhecer.

As pessoas olham, apontam, sorriem! E quase sempre alguém se lembra de alguma coisa.

“Meu pai teve um desses”, “aprendi a dirigir em um igual”, “meu avô nos levava para a praia nesse carro.”

Talvez seja justamente nesse momento que o antigomobilismo cumpra sua função mais bonita.

O carro deixa de preservar apenas sua própria história e passa a despertar a história dos outros.

Por isso, talvez devêssemos nos perguntar de vez em quando: estamos preservando nossos carros antigos ou estamos impedindo que eles continuem fazendo história?

Cuide do seu clássico. Preserve sua originalidade. Faça manutenção. Respeite seus limites. Guarde sua documentação e conheça sua história.

Mas, sempre que possível, gire a chave, abra a garagem e pegue a estrada.

Porque um carro perfeitamente preservado pode nos mostrar como era o passado.

Um carro antigo rodando ainda pode criar novas histórias.

Fernando Vianna
Editor-chefe | Retro Drive


Fernando Vianna é Fotógrafo e Designer Gráfico com larga experiência em edição de livros. É editor do Museu Virtual Santos Dumont, e do portal Retro Drive.