Desde muito pequeno, as duas rodas já habitavam meu imaginário. Não como um plano, nem como um sonho declarado, era mais como um fascínio silencioso. Eu tinha um amigo de infância que possuía uma mobilete, e vê-lo cruzando a rua onde morávamos despertava em mim algo difícil de explicar. Ao mesmo tempo, eu sabia: aquilo não era para mim. Meus pais não gostavam de motos.
Curiosamente, minha primeira lembrança sobre uma moto vem ainda mais cedo. Eu tinha apenas três anos quando meu tio comprou uma e me levou para dar uma volta. Talvez, naquele instante breve, algo tenha sido plantado, uma semente que ficaria adormecida por muitos anos.
Cresci andando de bicicleta, inseparável companheira de todas as fases da infância e adolescência. Era a forma possível de viver a liberdade sobre duas rodas. As motos continuavam distantes, quase proibidas, como um universo paralelo ao qual eu apenas assistia de longe.
Quando estava prestes a completar 18 anos, meu pai planejava repetir o gesto que já havia feito com minha irmã: dar um carro. Mas as circunstâncias financeiras da época tornaram isso difícil. Eu, sempre conformado, fiz uma sugestão que parecia simples, mas que mudaria tudo:
“Então me dá uma moto.”
A reação foi imediata e contundente. Moto estava fora de cogitação. Nem pensar. Ele chegou a dizer que eu estava maluco por sequer cogitar aquilo. A conversa terminou ali, no almoço, e ele voltou ao trabalho decidido a procurar um carro.
Mas algo inesperado aconteceu naquele mesmo dia.
Antes de sair, eu ainda havia sugerido uma alternativa aparentemente menos radical: uma scooter, a recém-chegada Vespa, que começava a ser lançada no Brasil. Eu já sabia onde vendia, quanto custava, as condições, tudo!
No fim da tarde, o telefone tocou: “Onde é que vende essa Vespa?”
Depois de visitar várias concessionárias e perceber que realmente não conseguiria comprar um carro, meu pai tomou uma decisão surpreendente. Aceitou a ideia, porém com uma condição clara: eu só poderia usá-la dentro do bairro, para ajudar nos afazeres da loja da minha mãe, ir ao banco, resolver pequenas tarefas próximas.
E assim, quase por acaso, nasceu minha primeira moto.
Respeitei aquele acordo com disciplina. A Vespa não era apenas um meio de transporte; era independência, responsabilidade e, sem que ninguém percebesse, o início de uma paixão sem volta.
Durante cerca de dez anos ela fez parte da minha rotina. Pouco tempo depois de adquiri-la, acabei também ganhando um carro, o que naturalmente dividiu minha atenção. Ainda assim, a pequena scooter permaneceu como algo especial, silenciosamente importante.
Eventualmente, chegou o momento de seguir adiante. Para entrar em um novo capítulo sobre duas rodas, precisei me desfazer dela. Vieram outras scooters, depois motocicletas maiores… e então não houve mais retorno. O mundo das motos tinha se tornado parte definitiva da minha identidade.
Hoje, daquela primeira companheira restam apenas as lembranças, e talvez, em algum lugar, o manual do proprietário guardado como uma relíquia de um tempo em que tudo começou.
Porque algumas máquinas passam pela nossa vida.
Outras constroem quem nós nos tornamos.
Fabio Palazzo é engenheiro mecânico, motociclista com 38 anos de experiência e proprietário da Tucson Motorcycles, oficina e loja especializada em motocicletas. Sua vivência une sua bagagem técnica ao prazer pessoal de viagens e lazer, focando na validação real de produtos em estrada, segurança e confiabilidade mecânica.



