Araxá em ascensão, Lindóia em transformação: o que os encontros de 2026 revelam sobre o futuro do antigomobilismo brasileiro.
O mês de junho de 2026 ficará marcado como um dos mais debatidos da história recente do antigomobilismo nacional. A realização simultânea do Brazil Classics Show, em Araxá, e do Encontro Brasileiro de Autos Antigos de Águas de Lindóia reacendeu uma discussão que há alguns anos circula entre colecionadores, restauradores e clubes: afinal, para onde está caminhando o antigomobilismo brasileiro?
A imagem que circulou nas redes sociais após os eventos resume bem esse sentimento. De um lado, Araxá aparece associada a crescimento, exclusividade e valorização da originalidade. Do outro, Lindóia é retratada como um evento que enfrenta desafios decorrentes do próprio sucesso alcançado ao longo das últimas décadas.
Mas a realidade é mais complexa do que uma simples disputa entre vencedores e perdedores.
O crescimento de Araxá
O Brazil Classics Show construiu sua reputação apostando em um modelo diferente. Realizado nos jardins do Tauá Grande Hotel de Araxá, o evento prioriza a curadoria dos veículos expostos, a originalidade dos exemplares e a preservação histórica.
Nos últimos anos, muitos colecionadores passaram a enxergar o encontro mineiro como uma espécie de concurso de elegância brasileiro. A presença de veículos raros, restaurações de alto padrão e modelos com histórico documentado transformou o evento em referência para quem busca excelência no antigomobilismo.
O ambiente também contribui para essa percepção. Enquanto muitos encontros privilegiam quantidade, Araxá aposta na qualidade da experiência. Os carros tornam-se protagonistas de um cenário histórico cuidadosamente preservado, criando uma atmosfera que remete aos grandes concours d’elegance internacionais.
Esse posicionamento tem atraído colecionadores de todo o país e ampliado a visibilidade do evento dentro do mercado especializado.
O desafio de Lindóia
Seria injusto, porém, interpretar a situação de Águas de Lindóia como um processo de decadência.
O encontro paulista continua sendo, de longe, o maior evento de carros antigos do Brasil e um dos maiores da América Latina. Nenhum outro evento nacional reúne tamanha quantidade de veículos, clubes, expositores, comerciantes e visitantes.
O desafio de Lindóia é justamente o tamanho.
O crescimento constante do público trouxe consigo questões logísticas cada vez mais complexas. Infraestrutura, hospedagem, circulação de veículos, espaço para expositores e experiência dos visitantes tornaram-se temas recorrentes nas discussões pós-evento.
Ao mesmo tempo, parte dos colecionadores mais tradicionais manifesta preocupação com a diminuição proporcional do número de veículos históricos de grande relevância em comparação ao crescimento do número total de automóveis expostos.
Isso não significa perda de importância. Pelo contrário. Lindóia continua sendo a principal porta de entrada para milhares de novos entusiastas, além de movimentar significativamente o mercado de compra e venda de veículos, peças e memorabilia.
Dois eventos, duas missões
Talvez o erro esteja em tentar transformar Araxá e Lindóia em concorrentes diretos. Os dois eventos cumprem papéis diferentes dentro do mesmo ecossistema.
Araxá representa a preservação, a excelência, a originalidade e o aspecto cultural do antigomobilismo. Lindóia representa a democratização do hobby, o encontro entre amigos, os negócios, a descoberta de novos apaixonados e a celebração popular dos automóveis antigos.
Um funciona como vitrine da qualidade histórica. O outro funciona como coração pulsante da comunidade antigomobilista.
O verdadeiro vencedor
Se existe uma conclusão possível após os eventos de 2026, ela talvez seja mais positiva do que as discussões nas redes sociais sugerem.
O crescimento de Araxá demonstra que existe espaço para encontros altamente especializados. A força de Lindóia mostra que o interesse pelos carros antigos continua vivo e capaz de mobilizar centenas de milhares de pessoas.
Em vez de representar uma disputa, os dois encontros revelam a maturidade do antigomobilismo brasileiro. Um movimento que já não depende de um único formato para sobreviver.
No fim das contas, Araxá e Lindóia contam histórias diferentes, mas complementares. E ambas ajudam a preservar aquilo que realmente importa: a memória sobre rodas.
Fernando Vianna é Fotógrafo e Designer Gráfico com larga experiência em edição de livros. É editor do Museu Virtual Santos Dumont, e do portal Retro Drive.



